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quinta-feira, 30 de abril de 2009

Acredito na bondade das pessoas como algo inerente a todo ser humano. Mesmo que o mundo se canse em mostrar o outro lado, eu prefiro seguir o caminho sem pegadas, onde ao fundo se escondem as brincadeiras e os sorrisos.

Ora, há quem seja totalmente bom? No mínimo, inteiramente humano.

Dizem que isso advém da minha inocência, a mesma que se perderia com o tempo, mas nunca acreditei nisso. A verdade é que cresci e passei a perceber nas entrelinhas dos gestos o que as pessoas queriam dizer, Só ainda assim estou como há anos atrás: com o mesmo espírito, com uma juventude renovada e com o mundo inteiro nas mãos. Não importa quantas vezes me digam o contrário, tenho as minhas próprias crenças e imagens: as mesmas que eternizar-se-ão caso eu não esteja enganada.


Annie Jolie

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Manual de Instrução

A graça de brincar com um quebra-cabeça é a incerteza do sucesso, o erro das jogadas e o anseio pela completude. Ora, se o recebestes logo preenchido, contemplar-lo-ia por apenas alguns instantes, para logo considerado-lo uma diversão antiga; mas sinta a falta de uma só peça, daquelas que se localizam ao centro e roubam um de seus detalhes essenciais. Verás, com isso, um misto de sentimentos inexplicáveis, que uma só parte ausente de quebra-cabeça proporciona. A quem te presenteou, recomendo o segredo: se quiseres que este nunca caia ao fundo da gaveta, guarde-a com afinco; do contrário, contente-se com minutos de contemplação e a eternidade do esquecimento.

Eis o que chamo de figuras de linguagem.


Annie Jolie.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

... que horas são?

Acordo no meio do sonho sem saber se é dia ou se já anoiteceu, se o dia ainda é o mesmo, ou o seguinte; Acordo sem saber as horas, pra onde vou, com quem vou ou se vou; sem saber como acende a luz, em que lado da cama está o chão, e onde está o celular.

Acordo sem norte, sem luz e sem ar; por que o despertador pela vigésima vez não tocou? cadê o meu travesseiro? O que tem pro café da manhã? Compraram o café?ou já será o jantar? Por que minha mãe tirou a toalha do meu banheiro? Cadê o meu chinelo?

Mas afinal, o que eu faço agora? Que horas são?

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Uma noite de cara-enfiada-no-travesseiro

Ei, espera! Eu ainda tenho muito o que te falar. Aparentemente eu sou assim, meio "caradepoucosamigos", mas na verdade o que eu sinto só eu sei. Não falo pra ninguém porque eu tenho medo, cara. Sei que você não entende, nem garanto que saia daqui entendendo melhor alguma coisa. Mas agora eu preciso falar, não se levanta daí, por favor. Pede outra cerveja, tenta engolir sem pressa de me ver pelas costas. Eu sei que ela pode esquentar, mas não vamos pensar apenas nas coisas práticas e banais. Te chamei aqui nem sei porquê, já está me dando aquela coisa na cabeça, aquela coisa que quando me dá eu não consigo ornanizar nada, então saem essas coisas desesperadas, provavelmente incompreensíveis que eu tô falando. Me desculpa, cara, mas não se levanta, não sai pela porta desse bar, eu não sei se aguento outra cena assim, fica sentado, não precisa nem olhar pra mim se não quiser, mas me escuta. Você pode ficar calado também, pode fingir que não tá escutando, mas deixa que eu continue.
Como foi que a gente deixou chegar nesse ponto? Eu tô aqui, bebendo feito uma louca, tentando me explicar por coisas que eu nem sei, por coisas que não aconteceram só por minha culpa. No dia em que você foi embora, eu fiquei te esperando voltar pela porta que você mesmo deixou aberta, porque eu nem mesmo me dei ao trabalho de tirar a cara enfiada no travesseiro e ir fechá-la, de tomar coragem pra andar pela casa até a porta e ver que estava tudo no lugar, menos você.
Não queria levantar daquela cama, pra ver se dormia, se esquecia que eu poderia ter feito isso na hora, ter te pedido pra ficar, trancado a porta e jogado a chave pela janela, ter te amarrado até que eu soubesse o que fazer, o que dizer. Queria esquecer que eu só enfiei a cara nesse maldito travesseiro pra não te ver indo embora. Gritei pro travesseiro pra não ouvir você batendo a porta, o carro saindo.
Não queria ter que abrir os olhos e ver que os teus sapatos estavam ainda debaixo da cama porque você saiu com tanto desespero que nem se calçou. Não queria ver a toalha molhada que você deixou na ponta da cama. Não queria não ver teu carro na garagem na hora do almoço. Não queria ver que já estava na metade da manhã e você não tinha me ligado do trabalho pra dizer que não me acordou porque eu estava paracendo um anjo e dizer que agora estava tudo bem, que tinha sido só mais uma das milhões de discussões idiotas e normais. Não queria entrar na cozinha e não ver a tua chícara suja de café em cima da pia e que a nossa plantinha na sala estava seca. Não queria ver a minha cara inchada pela alcançada quase falta de lágrimas, resultado de uma noite inteira de cara-enfiada-no-travesseiro.
Não queria, não queria nada disso. Mas levantei e até tentei não perceber isso tudo. Tentei até ver um filme. Mas depois de um "Eu não vou embora por que eu prefiro estar aqui, brigando com você do que estar fazendo amor com qualquer outra pessoa" do filhadaputa do garoto de programa que se apaixona pela cliente e de mais duas intermináveis horas naquele apartamento que tinha se tornado além de enorme, totalmente vazio, escuro e frio, não consegui mais. Peguei o carro e sai dirigindo. E bebendo. No começo não sabia onde ir e nem o que fazer. Mas eu precisava te ver e eu sabia que ia te encontrar aqui. Queria só te ver, só passar e ver como estava a sua cara depois de tudo, mas aí eu te vi aqui sentado sozinho, quase cheguei a ver lágrimas nos teus olhos e eu tive que vir aqui, foi quase involuntáriamente. E ainda é involuntáriamente que essas coisas estão saindo de mim..

Larissa Fontes

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Soneto para Maceió

Ai, que linda Maceió
És tão pequena, és grandiosa
Que ao deixar para trás tuas praias maravilhosas
Todos sentem dó.

Ai, minha linda Maceió
Às vezes, de ti, falo muito mal
Já não mais suporto esta terra infernal
Mas é que sem você me sinto só.

Um dia deixarei esta cidade
Mas, a seus braços, voltarei correndo de tanta saudade
Para me banhar no mar da praia de São Miguel.

E é em teu solo que tanto pisei
O mesmo em que me enterrarei
Feliz, Maceió, por ter me concebido.

(Leandro Moreira)

Ele alí, tão irreal

Eu não sei fazer poesia, nem escrever bonito, mas tenho de falar de quando o vi. Ele alí, tão irreal, sentado na minha frente.
Eu trabalhava de garçonete naquele bar desde que eu tinha 16 anos. Estava acostumada com bêbados me cantando e vomitando todo fim de noite, acho que até fiquei meio antipática por conta disso. Nunca dei ousadia pra nenhum daqueles homens, primeiro porque eu estava trabalhando e segundo porque tinha nojo da maioria deles. Mas não dizia nada. Servia quieta, fazia meu trabalho bem feitinho pra não dar brecha pra reclamação.
Fazia um tempo que eu via um rapaz bem bonito que vinha sempre aos sábados e sentava na mesma mesa, lá no fim do bar. Eu nem tinha coragem de ir lá, tão bonito ele era. Sempre mandava o Bento, o outro garçom que trabalha comigo, que é muito meu amigo. Acho que o único amigo que eu tenho. O Bento é meio gay, apesar de nunca ter assumido, e sempre ia de bom grado atender o rapaz bonito. Sempre pedia umas cervejas e ficava lá, bebendo sozinho. O Bento me conhece bem e percebeu que eu ficava meio nervosa quando ele chegava, por isso acho que ele abriu mão da paquera e deixou pra mim, porque sempre vinha me dizer algo que descobria sobre ele.

Mas o que eu quero realmente contar, foi o dia em que ele chegou e não sentou na mesa de sempre. Sentou-se no balcão e então foi que o vi tão de perto. Ali, tão irreal, sentado na minha frente. Me olhou e simplesmente foi falando.

- Tive um sonho ruim...

Foi como se ele tivesse aberto tudo dentro de mim. Como se nos conhecêssemos desde sempre. Mesmo nunca tendo trocado uma palavra sequer com ele, eu sabia que estava falando comigo. Então larguei o pano de prato e os copos que eu lavava e sem dizer nada, me sentei em frente a ele. Senti que ele precisava falar. Só falar. Eu só vim a esse mundo, meu Deus, para ouvi-lo.

- “Eu andava sozinho por uma praia, a noite. Parecia não saber o que estava fazendo nem pra onde estava indo, só andava e andava. De repente dei a olhar pra trás, com medo de alguma coisa. Um medo me consumiu, um medo inexplicável. Olhava pra trás e não via nada, só a escuridão. E eu acho que era justamente isso que me dava medo: a escuridão.”

- Eu também tenho medo da escuridão. Embora vive nela...

- Como assim vive nela? Se a tua aura é completamente feita de luz? Clara!

- A minha o que?

- A sua aura. É uma coisa que te emana e envolve toda, como um sopro de ar. Diz muito sobre seu emocional. A sua, posso ver, é clara como o sol.

Eu precisava dizer alguma coisa. Mas o que eu poderia dizer? Que conversa, eu, uma pessoa que não sabe o que é aura, poderia ter com um cara assim? Acho que minha cara, que ficou totalmente vermelha, falou por mim. Ele facilitou.

- Te deixei sem graça? Não era a minha intenção, desculpe.

Não consegui responder nada, só o olhei, e quando vi que ele ainda não tirara os olhos de mim, abaixei os olhos ainda me sentindo quente, dessa vez não só o rosto, mas o corpo inteiro.

Nessa hora eu já me esmurrava por dentro, como eu podia ser tão idiota e não a ponto de não saber manter uma conversa com um homem? Principalmente sendo o homem com quem eu sempre sonhara.

Vi nos olhos dele alguma coisa de estranho. Não sabia ao certo se era uma coisa boa ou algo triste, mas fiquei olhando fixamente pra eles, sem perceber. Devo ter feito alguma coisa de errado, porque ele me deu um sorriso meio tristonho, e se levantou. Ainda ficou parado em frente ao balcão, como se esperasse que eu fizesse alguma coisa. Eu apertava minhas pernas, que ele não podia ver, me castigando por não ter coragem de fazê-lo ficar.

Ele se demorou um pouco ainda, mas viu que eu não ia falar nada e se virou. Começou a andar lentamente em direção a porta, tinha a cabeça baixa.

E se ele não voltasse? Se aquela mesa ficasse vazia de agora em diante?

Não pensei em nada. Dei um grito.

- Fica comigo?

Que reação ele ia ter agora, meu Deus?

Ele sorriu e veio na minha direção.

Larissa Fontes.